Arthur

meu blog

imagem gerada no chatgpt

Teste 22/03/26

Para variar hoje acordei ansioso, pensando em mudanças. É o que dizem: nada é, tudo está. Neste momento estou me sentido saturado de informações, de pensamentos, coisas para fazer, ideias, pessoas.

A conectividade possibilitada pelo smartphone tem sido um problema para mim e para os outros au meu redor também. Estamos disponíveis o tempo todo, incondicionalmente disponíveis. Eu sinto uma necessidade de acessar as redes sociais, parece que se eu não entrar nelas estou perdendo algo, que alguma coisa grandiosa ou catástrofe vai acontecer a qualquer momento.

A sensação é exatamente essa. Preciso estar ali, online, atualizado a cada minuto bebendo informações aleatórias e irrelevantes neste oceano vasto e raso. Existem, sim, muitas vantagens, facilidades e recursos. Porém, para desfrutarmos disso há um preço a se pagar. Esse preço é pago com nosso tempo, com a minha atenção, com meu cérebro processando propagandas que surgem espontaneamente em meu feed vertical ou horizontal.

Essas propagandas aparecem no meio das informações que tenho interesse em consumir. O conteúdo que espero ver está contaminado com anúncios ou vídeos, reels, sugeridos que levam para outros lugares, para novos corredores, com infinitas novas portas para novos corredores, numa ramificação infinita de coisas que prendem minha atenção, em um ciclo incontrolável. O pior disso tudo é que as informações que surgem chamam minha atenção, sem que eu perceba, e eu sou capturado por elas. Quando me dou conta, já estou em um corredor e abri várias outras portas neste labirinto.

Meu tempo, minha atenção, são, na verdade, o que fazem os donos dessas plataformas faturarem. Afinal eles recebem um valor por visualizações nas propagandas veiculadas pelos anunciantes. Parte desse dinheiro vai também para alguns criadores de conteúdo, é verdade, mas o grosso desse volume entra na conta do marquinhos e companhia.

É um mercado da atenção. Minha atenção virou um produto, mensurado pelo tempo, cliques e tipo de conteúdos que consumo. O fato concreto é que eu tenho um veículo ao meu dispor, sem custo nenhum, mas completamente poluído com outros conteúdos inúteis e irrelevantes para mim.

Quem faz essa curadoria, quem tem o controle sobre o que vejo não sou eu exatamente, mas a sistemática do software do instagram, o famoso algorítimo das plataformas. eu controlo quem eu sigo, as minhas preferências de conteúdo. Mas no fim do dia, sou manipulado para onde a plataforma obterá maior lucro.

Todas essas análises e reflexões são no fundo para que eu tente racionalizar as razões pelas quais gasto tanto tempo nisso, em frente a tela. Esse tempo gasto no mundo virtual me faz falta no mundo material e concreto onde vivo. São horas por dia ali e isso precisa mudar de alguma forma.

Entretanto, eu me sinto também dependente deste veículo. Dependo dele para manter o contato, mesmo que superficial, com as pessoas que gostou ou tenho interesse. Dependo para ter acesso à informações como a programação cultural dos aparelhos da cidade, as condições do mar naquele período, a como está a vida dos mues familiares e amigos, pessoas com quem realmente me importo e gosto, mas que estão longe.

Existem outros meios e canais para eu conseguir ter acesso a tudo isso, mas aí demanda de mim uma postura mais ativa, proativa, de buscar as informações, de me comunicar diretamente com essas pessoas. No fundo eu me engano pela falsa sensação de estar bem informado ou próximo das pessoas, mas na verdade estou tendo acesso a pilulas de afeto, informações rasas, incompletas e descontextualizadas.

Qual a proporção de todo esse volume de informações realmente me preenche e traz a sensação de satisfação que busco? Quais alternativas eu posso buscar para isso?

Quando penso então no whatsapp, que é uma rede de contato direto com as pessoas, outros questionamentos vem a tona. O primeiro é que ali estou disponível incondicionalmente, online a cada instante. As pessoas têm a ideia de que ao enviar uma mensagem vão ter acesso a mim do mesmo modo que em uma conversa frente a frente.

Uma coisa é conversar, trocar ideias olho no olho, onde existe efetivamente um diálogo. outra é um bate papo online. Para minha geração de milenials isso é uma herança dos tempos de ICQ e MSN, onde eu passava as madrugadas na frente do computador, única e exclusivamente com o objetivo de socializar virtualmente. Hoje, esse momento que antes tinha dia e horário para acontecer, acontece a todo instante, a cada segundo. São mensagens que chegam das mais variadas pessoas e grupos.

Eu não sei lidar com isso. A cada nova notificação eu sinto a necessidade de checar aquela informação e responder a mensagem na mesma hora. Por que? Eu não sei ao certo. Penso que talvez seja porque sou muito curioso, tenho um ímpeto muito forte por descobrir coisas novas, de pesquisa, de saber de tudo, do máximo que eu puder de tudo. Além disso sou extremamente impulsivo e impetuoso.

Não consigo encontrar uma forma de lidar com isso. Já tentei das mais variadas formas, quem convive comigo sabe. A única forma que deu certo quando tentei foi me desligar dessas duas redes definitivamente. Porém, com isso, pago um preço alto, perdendo esse canal de contato com as pessoas que não encontro cotidianamente.

O que se abre mão por estar fora das redes sociais é, primeiro, que você acaba se “afastando” dos seus amigos, não tem mais notícias do que está acontecendo na vida deles. De certa forma também é bom pois você peneira dentre aquelas centenas de pessoas quem são as realmente fundamentais na sua vida. Essas, no geral, você vai continuar se relacionado de uma forma ou de outra, encontrando alternativas. Os relacionamentos se adaptam quando há interesse mútuo e genuíno em preservar aquele laço. Segundo, é que compartilhar mídias e conteúdos fica mais complicado e difícil. Por exemplo, quando se deseja enviar uma foto ou vídeo para alguém. Nestes casos você vai precisar usar e-mail ou coisas do tipo. Terceiro, é que alguns serviços ficam praticamente inacessíveis por conta disso. Realmente tem empresas hoje que só se relacionam com seus clientes pelo whatsapp.

Portanto, optar por abandonar o uso dessas plataformas pode criar algumas dificuldades e gerar transtornos quandose tem pressa ou necessidade de resolver alguma questão. A comunicação não torna-se impossível, mas certamente demandará maior esforço e não será mais instantânea e imediata.

Outro elemento para analisar dentro deste contexto é o uso do smartphone em si. Por que? Porque através dele temos acessos a muitos outros serviços como conta bancária, e-mail, plano de saúde, mapas, taxis ou carros de aplicativo, etc.

O fato intrigante é que tratam-se, no geral, tudo de ferramentas estadunidenses. Facebook, Whatsapp, MSN, Iphone, Gmail, Drive, etc. Essa é fundamentalmente constatação da nossa dependência tecnológica. Mesmo que eu compre equipamentos chineses ou nacionais, eles vão usar muitos destes recursos originários dos EUA.

No próprio smartphone, com engenharia gringa, montados no sudeste asiático ou China, existem materiais críticos que são originados em atividades de mineração de alto impacto ambiental, proveniente de outros lugares também dependentes, exportadores de mercadorias primárias de baixo valor agregado. A estrutura dessa cadeia industrial reforça nossa condição de dependência.

Join The Writer's Circle event E aí a escolha que devo fazer é: rompo com essa dependência de uma vez e uso tecnologias mais simples ou aceito essa dependência tecnológica e mental e trabalho em novas alternativas estruturais para superá-la?

Confesso que a primeira me é mais atraente pois depende só de mim e é rápida. Porém ela pode expressar uma postura primitivista, de negação do poder dessas ferramentas que dispomos, apesar de não termos o domínio ou controle sobre o funcionamento e fabricação delas.

Nesta perspectiva, faz mais sentido eu não abandonar o smartphone, mas sim as redes sociais das corporações gringas. Isso porquê o smartphone não tem exatamente um produto substituto que concentre todas as funcionalidades que ele conseguiu reunir. Já as redes sociais sim. Tudo o que eu posso fazer no instagram ou whatsapp, eu posso fazer de formas alternativas. O ideal seria eu utilizar um smartphone que represente o mínimo de dependência possível. Mas não encontramos produtos para isso, com o mesmo nível de capacidade.

Existem produtos alternativos como os aparelhos da unihertz, light phone, punkt, clicks, sidephone, mecha comet, feature phones com kaios, qin phone, bigme, boox, entre outras alternativas inovadoras que já tentei ou pensei em usar. Esses produtos, apesar de serem de nicho, evidenciam um mal estar geral com o uso dos smartphones, como fica evidente ao se ler reportagens como:

  • “Celulares são feitos para serem viciantes”, diz Aaron Paul;
  • Startup lança celular para quem não quer distrações;
  • Smartphones: as pessoas que querem ter celulares menos inteligentes — e por que empresas não querem mais fabricá-los;
  • ‘Telefones burros’: como os celulares sem conexão estão ressurgindo no mundo hiperconectado;
  • “Dumbphones” modernos são a solução para viciados em celular?;
  • Celulares básicos resistem ao lado de smartphones, mas devem desaparecer até 2030;
  • Você teria um dumbphone? Entenda o que são os ‘celulares burros’ e por que o modelo tem adeptos pelo mundo.

Outra questão é o uso das ferramentas da google como gmail, drive, fotos, contacts, calendar, youtube music, docs, etc. Pode parecer que não, por terem uma postura mais discreta, mas também dependo muito deles. Eu pago todo mês para eles um determinado valor para armazenarem minha informações em seus data centers ou para ouvir musicas online.

Neste sentido, surge a necessidade de buscar um sistema de e-mail alternativo e encontrar outras formas de armazenar meus dados e informações. Como alternativa para o e-mails posso buscar plataformas independentes como a riseup ou outras do tipo. Como alternativa para meus dados um HD externo pode resolver esse problema.

Meu gmail é uma caixa de entrada de infinitas propagandas. Eu mal consigo diferenciar o que é o que dentro dela. Com o uso do thunderbird por exemplo fica mais fácil lutar contra essa avalanche de mensagens, mas mesmo assim não me sinto confortável em terceirizar para os gringos o armazenamento das minhas informações.

Além disso, para as músicas, tenho as mídias físicas, CDs e LPs, em minha casa e rádio. Sei que isso limita muito o acesso, mas posso também buscar plataformas alternativas para além dessas mais conhecidas. Infelizmente eu perdi durante uma sincronização para uma dessas ferramentas de armazenamento em nuvem todo o meu acervo de mp3 que acumulei ao longo de cerca de duas décadas. Eram outras mídias, estas digitais, que eu possuia.

Eu estava conversando no final de semana passado com uma amiga exatamente sobre vícios, inclusive vício nas redes sociais. Disse para ela que uma das principais razões de eu ter me livrado das bebidas foi pela minha motivação política por detrás da decisão.

Ao ver a lista da forbes e constatar que a maioria dos bilionários do país são da indústria de bebidas e alimentos, enquanto temos diversas pessoas passando fome e se embriagando para a suportar a vida terrível que levam tendo sua mão de obra superexploradas. Sem falar dos problemas pessoais que o alcool causou a mim e minha família ao longo de gerações. O alcolismo é um sintoma e o alcool é um remédio que usamos para anestesiar a moléstia insuportável causada pela nossa realidade miserável e desigual.

Portanto, toda essa simples reflexão, no fundo, é sobre as forças que nos orientam e nos movem. Eu quero ser movido pelas forças que vem de dentro de mim genuinamente, que me levam para meu destino e no sentido do que acredito ser o melhor para mim, para os meus e para os nossos.

Tenho andado muito confuso, tentando entender quais são exatamente as forças que me movem, as atividade que me fazem sentir quem eu sou, as ações que me configuram enquanto Eu. Ainda não tenho essa clareza. Estou tonto e anestesiado por essas telas que criam e apresentam uma realidade virtual, criada artificialmente e efêmera. Eu desejo o que Belchior desejou. Quero vivências concretas, reais, com resultados verdadeiros e que me representem na minha melhor forma.

Eu não quero ser um mero avatar idiota. Se a maioria ainda não despertou para isso, paciência. Vou trabalhar para provocar essa reflexão e criticar o que não concordo. Talvez meu papel seja exatamente este, de provocar para que busquem, à sua maneira, encontrar seus caminhos verdadeiros e estarem experimentando (con)vivências na vida real, dedicando nosso raro e preciso presente, tempo, com intencionalidade, para ações e pensamentos que vão ajudar a realizar efetivamente nossos sonhos.

Porque, no fundo, o que vemos por detrás dessas telas e, que tanto nos impressionam, são, de alguma forma, nossos sonhos. Mas é a hora de acordar e materiazalizar nossos desejos, buscando usar melhor os recursos que dispomos, mesmo que limitados.

Essa reflexão pode ser interpretada como um manifesto intitulado “Suicídio do meu avatar: manifesto pela busca da realidade concreta e luta contra a dependência tecnológica ”.

Enter your email to subscribe to updates.